Como as stablecoins estão transformando o mercado de câmbio internacional
O mercado de FX movimenta US$7,5 trilhões por dia. As stablecoins estão capturando uma fatia crescente desse volume.
Uma versão deste texto foi publicada originalmente na newsletter do autor no LinkedIn, em novembro de 2025 (ver publicação original).
Você ainda acha que stablecoins são apenas mais um produto do mercado cripto? Então talvez tenha perdido o momento em que elas deixaram de ser “ativos digitais” e se tornaram a infraestrutura invisível do sistema financeiro global.
Em 2025, o mercado de stablecoins ultrapassou US$300 bilhões em valor total, segundo dados do Yahoo Finance. É um número impressionante — e mais importante: estável, mesmo em períodos de volatilidade no Bitcoin e no Ethereum. Isso mostra que o papel das stablecoins já não é especulativo, e sim funcional.
Quase 99% das stablecoins existentes são pareadas ao dólar americano. Os líderes absolutos — USDT (Tether) e USDC (Circle) — circulam em redes como Tron, Ethereum e Solana, processando bilhões de dólares em transferências todo dia, e juntas respondem por cerca de US$280 bilhões do valor total em circulação. A Tron domina as transações em países emergentes por custo e velocidade; a Ethereum funciona como pilar de confiabilidade e compliance; a Solana emerge como ponte para transações empresariais de alta frequência.
USD→Bank / stablecoin / venue
off-ramp layer→BRL→Pix
A cross-border dollar reaching a Brazilian account through a stablecoin rail, settling on Pix.
No Brasil, temos acompanhado esse movimento de perto. Na Coins.xyz, trabalhamos para que essa infraestrutura, que antes parecia distante da realidade brasileira, se torne acessível e intuitiva para qualquer pessoa que precise movimentar valor com previsibilidade e segurança. O que antes parecia uma “inovação do mercado cripto” hoje começa a se consolidar como infraestrutura financeira essencial: empresas, fundos e até instituições financeiras tradicionais estão usando stablecoins como alternativa prática para pagamentos, liquidação de transações e transferências internacionais.
O câmbio internacional está ficando obsoleto
Por que ainda aceitamos pagar 6%, esperar três dias e depender de bancos para enviar dinheiro entre países? Essa é a pergunta que está movendo corporações inteiras em direção às stablecoins. Segundo o Banco Mundial, o custo médio de uma remessa internacional gira em torno de 6,3% do valor enviado, podendo chegar a 10% em rotas que envolvem países em desenvolvimento — e os fundos ainda passam por vários intermediários, cada um cobrando sua taxa. Uma transferência em USDC entre duas carteiras na rede Ethereum pode custar menos de US$0,10 e ser liquidada em segundos, com registro público, rastreável e verificável.
E não é mais algo marginal. A Visa vem testando liquidações entre países com stablecoins, reduzindo custos operacionais e garantindo liquidação instantânea. A PayPal lançou sua própria moeda digital, a PYUSD, usada para transferências internacionais dentro da rede Stellar. Segundo o relatório Stablecoins and the Future of Cross-Border Payments (2025), o volume mensal de transações com stablecoins já ultrapassa US$1,5 trilhão — mais do que a soma das operações globais da Western Union e da MoneyGram. O volume diário da Tether (USDT) já ultrapassa o volume médio de pagamentos processados pelo PayPal.
Na América Latina, o crescimento é vertiginoso: o uso de stablecoins aumentou 400% nos últimos 12 meses, com Brasil, Argentina e México liderando o avanço. Em países onde a volatilidade cambial e a inflação corroí o poder de compra, as stablecoins se tornaram mais que uma alternativa — viraram uma ferramenta de sobrevivência financeira. Empresas exportadoras liquidam contratos em USDC ou USDT para evitar perdas cambiais; freelancers recebem pagamentos internacionais em minutos, sem taxas de 7% ou 10%. Na Coins.xyz, temos visto crescer uma comunidade que usa stablecoins não como novidade tecnológica, mas como solução prática para receber, pagar ou preservar valor com estabilidade.
O impacto econômico: uma nova forma de dolarização
Até pouco tempo atrás, a única forma de dolarizar a economia de um país era manter reservas em bancos estrangeiros, emitir títulos em dólar ou criar paridades cambiais. Agora, basta que cidadãos e empresas usem stablecoins pareadas ao dólar. Um relatório do JPMorgan alertou que o avanço das stablecoins pode fazer com que bancos de países emergentes percam até US$1 trilhão em depósitos, à medida que o dinheiro local deixa de circular internamente e é convertido em dólares digitais que escapam da jurisdição local.
Isso muda a arquitetura monetária global: o dólar deixa de ser apenas uma moeda e passa a ser um protocolo financeiro, acessível via blockchain, sem fronteiras nem burocracia. Grandes bancos já estão se adaptando — o Standard Chartered desenvolve soluções de liquidez em stablecoins para clientes corporativos, e o JPMorgan Onyx criou uma rede privada para liquidação de ativos digitais, um passo intermediário entre o sistema bancário tradicional e o novo sistema tokenizado.
O G20 ficou para trás?
Em 2020, o G20 anunciou um plano para baixar o custo médio global de remessas para menos de 3% até 2027. Segundo a Reuters, o progresso é mínimo. Enquanto isso, as stablecoins já entregam transações quase gratuitas, liquidação instantânea e acesso global — enquanto economias desenvolvidas ainda discutem regulamentação, o mercado já criou sua própria solução. A União Europeia aprovou o MiCA (Markets in Crypto-Assets), estabelecendo regras claras para emissores de stablecoins; nos Estados Unidos, SEC e Tesouro ainda disputam quem deve supervisionar o setor, enquanto Cingapura e Hong Kong assumem a dianteira na adoção corporativa.
As consequências para o sistema financeiro global
Será que estamos caminhando para um mundo sem câmbio? Em um cenário onde dólares digitais circulam livremente, a conversão entre moedas se torna uma operação de nicho, usada apenas por quem ainda depende de sistemas legados. Se antes o poder monetário estava nas mãos dos bancos centrais, agora ele começa a migrar para redes públicas e privadas baseadas em blockchain — o que não significa o fim dos bancos, mas o início de uma redefinição de papel: de intermediários para custodians, provedores de liquidez e gateways regulatórios.
À medida que essa infraestrutura se consolida, empresas como a Coins.xyz assumem um papel natural nesse processo: traduzir a complexidade do sistema para soluções simples, estáveis e alinhadas às normas locais. Para os países emergentes, o desafio é duplo — evitar a fuga de capital causada pela dolarização digital e, ao mesmo tempo, aproveitar o potencial de inclusão e eficiência que as stablecoins oferecem. Um equilíbrio delicado, mas inevitável.
O dinheiro está mudando de forma
O que está em curso não é apenas uma mudança tecnológica — é uma mudança de paradigma. A história do dinheiro sempre foi a história da confiança: de metais e cédulas, passamos para números em bancos; agora, entramos na era dos tokens programáveis. As stablecoins representam um elo entre o passado e o futuro — a estabilidade do dólar combinada à fluidez da internet. Elas tornam o câmbio invisível, a liquidez instantânea e o valor verdadeiramente global.
No fim, talvez essa seja a grande transformação: o dinheiro deixa de ser um produto dos bancos e passa a ser uma infraestrutura da internet — um protocolo sobre o qual novos serviços financeiros serão construídos. Aos poucos, a fronteira entre finanças e tecnologia desaparece. Não é o fim do dinheiro como conhecemos, mas o início da sua versão mais universal.
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